domingo, 21 de abril de 2013

Maldito vagabundo, maldito e vagabundo.





Maldito seja cada átomo da minha vida, maldita seja minha alma vagabunda.

Porque sonhas seu maldito? Porque queres, e o que queres seu vadio?

Estudar para que?  Ser algo que não quer? Trabalhar para que? Para viver e comprar coisas que não são
você?

Essa minha preguiça me faz ver o quanto sou inoperante, e essa mente que pensa e pensa, como se eu fosse um ser produtivo.

Como um motor de mil cavalos em uma carroça.

Aquela do sorriso bonito não é pra você nem nunca será.

Você não sairá de onde de está, não importa aonde vá.

Nada do que tens, tem valor, mas ainda sim não se desfaria  de nada não é mesmo maldito?

Viver é uma dádiva e você consegue transformar em maldição, por ser vagabundo ao ponto de todo trabalho ser um grande trabalho, por menor que seja.

Maldito por saber de tudo isso e não existir um único movimento físico de sua parte para mudar. Minha alma se agita dentro de minha carcaça, se nega a ser minha.

Maldito sejas, vagabundo. 

Maldito seja cada átomo da minha vida.

Sinto inveja de cada átomo  da sua vida.

sábado, 13 de abril de 2013

Templos religiosos - Os novos Comércios

Diante de tantos escândalos envolvendo igrejas evangélicas "principalmente" paramos para refletir sobre como será o mundo daqui alguns anos. Atualmente, as religiões e templos espirituais onde achávamos que seriam habitação de Deus, para orações e um momento íntimo com Jesus, estão virando comércios. Triste, mas é verdade.
        Há dias em que você está enfrentando umas das piores fases de sua vida, você vai a igreja com a  intenção de ouvir uma palavra de conforto, mas se depara com um líder religioso fazendo "apelos" para angariar fundos, apelos que tomam praticamente todo o culto, com orações pedindo a Deus que abra a mente dos fiéis para que eles se conscientizem da importância do dízimo e da oferta.
       O que deveria ser uma chuva de bençãos, palavras que deveriam servir de conforto naquele momento não são ditas, ou você sai da igreja igual a quando chegou, ou sai pior. Muitos podem dizer que as transformações são advindas de um coração aberto, mas como estar de coração aberto quando a maior parte de um culto a Deus é destinado a pedir dinheiro, afinal, estamos falando de um templo religioso onde destinamos um tempo só para Deus? Ou um templo construído para levantar fundos que nem ao menos sabemos que destino levará?
      Seria ignorância da minha parte dizer que um templo sobrevive sozinho e que não precisaria da ajuda dos fiéis para se manter, como pagariam aluguel? as manutenções do prédio? os missionários enviados à outros países para levar as boas novas? O que me espanta não é o fato de contribuir para a manutenção e construção de novos templos, o que me espanta é a forma como são pregados  o dízimo e a oferta nos templos.
      Esse meu desabafo não é baseado no que a mídia passa ou no que ouvi de outras pessoas, mas sim, baseado no que eu já vivenciei, visitei vários templos evangélicos e católicos e neste ponto não vi diferença na maneira como isso é pregado, isso me deixa muito triste pois contradiz completamente o que Deus nos ensina em suas inspirações.
     Já estive a ponto de abandonar alguns cultos em que fui como convidada, mas me segurei até a benção final por respeito a quem me fez o convite, ouvir de um líder espiritual que se diz ter vocação pastoral, dizendo que se você não ajudar com no mínimo R$500,00 Deus não vai te abençoar, é algo terrível. Que Deus tenha piedade daqueles que usam a palavra para enganar fiéis que vão à igreja simplesmente para ouvir uma palavra de conforto, aqueles que usam de psicologia para enganar as pessoas.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Meu Velho Pote de Memórias


                                      

Hoje enquanto estava no ônibus o pote onde eu havia guardado as lembranças do passado se abriu, talvez pelo solavanco das ruas esburacadas, ou das curvas muito fechadas, ou somente se abriu por achar necessária a recordação.

Lembrei-me das coisas ruins que tanto vivi e lembrei-me das cicatrizes que elas me deixaram, lembrei-me das lágrimas que caíram, e dos sorrisos que jamais se foram. Lembrei-me de quanto aprendi, mesmo contra minha vontade, e eu pude assistir a vida abrindo meu peito e lá enterrando a humildade.
Enquanto meus joelhos doíam como sempre, eu olhava para o nada, perdido em mim, sendo sufocado pelo que existia no interior do pote que desesperado eu tentava fechar ao mesmo tempo em que tentava guardar tudo que dali havia vazado.

Vi-me então de novo de roupas e calçados velhos me debruçando sobre o lixo das casas, procurando reciclagens, mas almejando encontrar uma saída para aquilo no meio de um daqueles sacos pretos ou das sacolas. Enquanto sentia o odor  de fezes de animais e de humanos e da água pútrida  de restos de comida erroneamente descartados. Pude ouvir as vozes às vezes carregadas de pena me pedindo para não rasgar o lixo, e outras vezes as vozes ignorantes me dizendo que não havia nada pra mim ali.
Pude sentir o cheiro de minhas roupas respingadas e sujas dos resíduos dos lixos, e a vergonha que eu sentia ao passar perto das pessoas e ver o modo como me olhavam. Pude me ver ainda pequenino amassando latinhas com uma marreta enferrujada, levando diversas broncas da minha mãe toda vez que eu deixava aquele trabalho para ir brincar.

Pude sentir de novo o quão forte o sol do meio dia pode ser se sentido incessantemente na nuca por horas seguidas enquanto se empurra uma carroça feita de carcaça de geladeira e rodas velhas de moto. Carcaça cheia, metros acima da minha cabeça,  fruto de uma manhã inteira de trabalho e vendida a reles poucos reais.

Vi-me de novo admirando aqueles tênis caros da vitrine e desejando algum dia andar com um igual nos pés. Ouvi de novo as chacotas das crianças da escola quando  se recordavam de terem me visto em algum momento do dia naquele trabalho.

-“ Lixeiro!”
- “Cata bagulho!”

Era o que eu ouvia de mais comum. E me doía tanto que eu levantava o gorro da blusa desbotada, para de alguma forma me esconder, mesmo que o calor estivesse a 30 graus.
Tive de novo o mesmo sentimento de outrora, quando eu me apaixonava infantilmente por uma garotinha e a olhava pelo recreio todo, e tive de novo a mesma reação ao vê-la abrindo o portão de sua casa e me vendo revirando seu lixo e tive de novo a mesma vontade de sumir.

Ouvi de novo meus pais brigando quase todos os dias, e ouvi de novo minha mãe chorando e me confessando o quão grande era o ódio dela pelo meu pai. Pude ouvir depois ela me dizendo como sentia tão triste e sozinha e meus olhos se encheram d’água pelo fato de eu não ter a mínima ideia (de novo) do que fazer  quanto a isso. E senti em meu corpo pela primeira vez todas as dores das quais todos os dias podia ouvi-la reclamar. Suas pedras nos rins, suas alergias pelas luvas já vencidas que usava no recolhimento de reciclagem, e senti meu rosto  arranhar  com sua mão grossa me acariciando. Senti a mesma frustração que ela sentia ao  vender por míseros dois centavos, vinte centavos, oito centavos e etc. o material que havia sido recolhido, separado, limpo e juntado por semanas inteiras atraindo ratos e baratas, mesmo a higiene sendo algo rígido dentro de casa.

A vontade de me libertar aparecia quando eu lia um destino desconhecido em algum ônibus e nessas horas eu sentia vontade de entrar nele e só parar no ponto final, ou quando em meio às cordas de varal do quintal eu via o céu azul cheio de nuvens e me imaginava lá no alto, sem destino, livre. Talvez daí que venha esse meu fascínio por asas.

Senti de novo a vontade de ter aquele já antigo vídeo-game, o qual era sempre prometido e sempre esperado em vão, pois, o dinheiro sempre era curto. E senti o desconforto da operação de hérnia que havia feito, talvez por ter de pegar pesos tão grandes com braços tão jovens e finos.

Nos meus pés havia a sensação de água da fria chuva, pelo fato dos meus tênis estarem furados e eu me sentir mal ao pedir para que fossem comprados novos. Esperava e aguentava até o fim do ano.

Dei um pulo a minha pré-adolescência e o brilho do dinheiro fácil oferecido pelo crime me veio aos olhos, ofuscando minha visão. E lembrei-me de todas as vezes que pensei em ir para o meio disso, e lembrei também de todas as vezes que recuava pensando no desgosto que minha mãe dizia que sentiria se eu me enveredasse por esse caminho, mesmo sem nunca saber quantas vezes eu já havia pensado no assunto.

Ouvi os inúmeros “nãos” ditos pelos mecânicos quando eu perguntava se eles precisavam de um ajudante. Vi-me explicando a minha mãe que gostaria de trabalhar fora para ganhar meu próprio dinheiro, escondendo em meio a essas mentiras a verdade de que eu já estava cansado de ouvir suas discussões com meu pai, e de receber trocados por uma semana trabalhada debaixo de sol, chuva e frio. Afinal, magoa-la me faria morrer um pouco mais.

Senti o vento forte dos carros que passavam rápido nas avenidas, enquanto eu esperava que o sinal fechasse  para panfletar mais uma vez. Lembrei-me do susto que levei ao ver um homem nú dentro do carro ao qual entregava um panfleto e lembrei também dos olhos  cheios de más intenções que diversas vezes eram dados a mim, por homossexuais, e como isso me irritava e  outras vezes me divertia ao contar para os amigos. Mal pude contar quantas vezes quase fui atropelado em meio aos carros. Voltando a mim por alguns segundos por  sentir a dor nos joelhos tortos eu suspirei, joelhos tortos pelo fato de ter andado muito e ter passado muitas horas em pé, mesmo em fase de crescimento.
Tentei contar quantos empregos eu já havia arrumado antes dos 18 anos. Panfleteiro, ajudante de mecânico, Office boy, lavador de carros, ajudante em um ferro velho, amarrador de arame em vigas de construção, ajudante de pedreiro e repositor de estoque em um mercado. Fiquei em dúvida se havia me lembrado de todos. Mas de uma coisa eu não esquecia, de como era explorado, maltratado e outras vezes humilhado pelos patrões, sendo que algumas vezes o que eu recebia por um mês de trabalho mal chegava a um salário mínimo.
Segurei lágrimas que tentavam  escapar de meus olhos, para não me envergonhar diante de tantas pessoas desconhecidas. Recolhi todas as lembranças e as coloquei de volta no pote, e dessa vez forcei a tampa para que aquilo não voltasse a acontecer, e guardei lá no fundo, mesmo eu sabendo que isso sempre se repetirá.

Desci em meu destino, e caminhei até em casa me orgulhando de tudo que vivi, sabendo que se  talvez as coisas tivessem sido diferentes eu não traria os bons valores que acho que trago hoje.
Só que lá no fundo, minha criança interior vestida com moletons mal cheirosos ainda desejava que nada daquilo tivesse acontecido.

Eu, Willian Borges Euzébio, gostaria muito que isso fosse somente mais um de meus contos, no fundo eu queria que fosse mentira. Sem me fazer de vitima, mas socialmente sendo. Isso é só um pouco da minha história.
WB




sexta-feira, 5 de abril de 2013

Lembranças


No rádio, tocava If I close my eyes forever. Lábios carnudos, olhos negros, cabelos compridos. Ela desejava estar ali e ao mesmo tempo lembrava-se de seu antigo amor. Suspiros, gemidos e uma mente perversa.

 Sentada tragando seus pensamentos, ela havia acabado com mais um maço, naquele mesmo dia tinha discutido com sua mãe, e sem revidar às palavras amargas sentou-se no canto da sala, onde ficava um sofá e uma velha escrivaninha, e com a cabeça debruçada em seus joelhos permaneceu ali por alguns minutos. Tinha uma vaga lembrança de seu pai, ele havia morrido quando ela ainda era jovem, entretanto ela se recordava daqueles grandes olhos a olhando enquanto fumava mais um de seus charutos, ele tinha coleção e quando recebia amigos em sua casa oferecia uma dose do velho Johnnie Walker e um de seus charutos.
Como ela desejaria sentar-se em seu colo mais uma vez, tocar aquelas mãos ásperas, alisar seus cabelos grisalhos e a barba por fazer. Ela sente muito por não ter sido um exemplo de filha, mas talvez lhe faltava um conselho de pai.

 Mutias coisas doem agora, seus dedos inquietos levam o vício à sua boca, lembranças a atropelam a todo momento. Antigos amores, desilusões, situações má resolvidas e uma insatisfação total.
Ela o abraçava com força, não podia crer que mais uma vez sentiria aquela mesmo dor, o último beijo. Seus pensamentos a traíam a todo momento, o que ela teria feito de errado desta vez? Desejaria apenas mais uma chance de concertar alguns erros, todavia quando o arrependimento bateu em sua porta preferiu insistir no mal e hoje padece de amor, sua alma chora. Sozinha, sentada naquele sofá, livros e roupas jogadas em todos os cantos da sala. Mais uma dose, uma dose desse amor bandido, uma dose de VOCÊ, uma dose desse amor bruto. Poderia sorrir e enganar mais alguma pessoas, ou acelerar o que no fim seria irremissível. Além das palavras que se foram com o vento, seu amor também se foi.