Hoje enquanto estava no ônibus o pote onde eu havia guardado
as lembranças do passado se abriu, talvez pelo solavanco das ruas esburacadas,
ou das curvas muito fechadas, ou somente se abriu por achar necessária a
recordação.
Lembrei-me das coisas ruins que tanto vivi e lembrei-me das
cicatrizes que elas me deixaram, lembrei-me das lágrimas que caíram, e dos
sorrisos que jamais se foram. Lembrei-me de quanto aprendi, mesmo contra minha
vontade, e eu pude assistir a vida abrindo meu peito e lá enterrando a
humildade.
Enquanto meus joelhos doíam como sempre, eu olhava para o
nada, perdido em mim, sendo sufocado pelo que existia no interior do pote que
desesperado eu tentava fechar ao mesmo tempo em que tentava guardar tudo que
dali havia vazado.
Vi-me então de novo de roupas e calçados velhos me
debruçando sobre o lixo das casas, procurando reciclagens, mas almejando
encontrar uma saída para aquilo no meio de um daqueles sacos pretos ou das
sacolas. Enquanto sentia o odor de fezes
de animais e de humanos e da água pútrida
de restos de comida erroneamente descartados. Pude ouvir as vozes às
vezes carregadas de pena me pedindo para não rasgar o lixo, e outras vezes as
vozes ignorantes me dizendo que não havia nada pra mim ali.
Pude sentir o cheiro de minhas roupas respingadas e sujas
dos resíduos dos lixos, e a vergonha que eu sentia ao passar perto das pessoas
e ver o modo como me olhavam. Pude me ver ainda pequenino amassando latinhas
com uma marreta enferrujada, levando diversas broncas da minha mãe toda vez que
eu deixava aquele trabalho para ir brincar.
Pude sentir de novo o quão forte o sol do meio dia pode ser
se sentido incessantemente na nuca por horas seguidas enquanto se empurra uma
carroça feita de carcaça de geladeira e rodas velhas de moto. Carcaça cheia,
metros acima da minha cabeça, fruto de
uma manhã inteira de trabalho e vendida a reles poucos reais.
Vi-me de novo admirando aqueles tênis caros da vitrine e
desejando algum dia andar com um igual nos pés. Ouvi de novo as chacotas das
crianças da escola quando se recordavam
de terem me visto em algum momento do dia naquele trabalho.
-“ Lixeiro!”
- “Cata bagulho!”
Era o que eu ouvia de mais comum. E me doía tanto que eu
levantava o gorro da blusa desbotada, para de alguma forma me esconder, mesmo
que o calor estivesse a 30 graus.
Tive de novo o mesmo sentimento de outrora, quando eu me apaixonava
infantilmente por uma garotinha e a olhava pelo recreio todo, e tive de novo a
mesma reação ao vê-la abrindo o portão de sua casa e me vendo revirando seu
lixo e tive de novo a mesma vontade de sumir.
Ouvi de novo meus pais brigando quase todos os dias, e ouvi
de novo minha mãe chorando e me confessando o quão grande era o ódio dela pelo
meu pai. Pude ouvir depois ela me dizendo como sentia tão triste e sozinha e
meus olhos se encheram d’água pelo fato de eu não ter a mínima ideia (de novo)
do que fazer quanto a isso. E senti em
meu corpo pela primeira vez todas as dores das quais todos os dias podia
ouvi-la reclamar. Suas pedras nos rins, suas alergias pelas luvas já vencidas
que usava no recolhimento de reciclagem, e senti meu rosto arranhar com sua mão grossa me acariciando. Senti a
mesma frustração que ela sentia ao vender por míseros dois centavos, vinte
centavos, oito centavos e etc. o material que havia sido recolhido, separado,
limpo e juntado por semanas inteiras atraindo ratos e baratas, mesmo a higiene sendo
algo rígido dentro de casa.
A vontade de me libertar aparecia quando eu lia um destino
desconhecido em algum ônibus e nessas horas eu sentia vontade de entrar nele e
só parar no ponto final, ou quando em meio às cordas de varal do quintal eu via
o céu azul cheio de nuvens e me imaginava lá no alto, sem destino, livre. Talvez
daí que venha esse meu fascínio por asas.
Senti de novo a vontade de ter aquele já antigo vídeo-game,
o qual era sempre prometido e sempre esperado em vão, pois, o dinheiro sempre
era curto. E senti o desconforto da operação de hérnia que havia feito, talvez por
ter de pegar pesos tão grandes com braços tão jovens e finos.
Nos meus pés havia a sensação de água da fria chuva, pelo
fato dos meus tênis estarem furados e eu me sentir mal ao pedir para que fossem
comprados novos. Esperava e aguentava até o fim do ano.
Dei um pulo a minha pré-adolescência e o brilho do dinheiro
fácil oferecido pelo crime me veio aos olhos, ofuscando minha visão. E lembrei-me
de todas as vezes que pensei em ir para o meio disso, e lembrei também de todas
as vezes que recuava pensando no desgosto que minha mãe dizia que sentiria se
eu me enveredasse por esse caminho, mesmo sem nunca saber quantas vezes eu já
havia pensado no assunto.
Ouvi os inúmeros “nãos” ditos pelos mecânicos quando eu
perguntava se eles precisavam de um ajudante. Vi-me explicando a minha mãe que
gostaria de trabalhar fora para ganhar meu próprio dinheiro, escondendo em meio
a essas mentiras a verdade de que eu já estava cansado de ouvir suas discussões
com meu pai, e de receber trocados por uma semana trabalhada debaixo de sol,
chuva e frio. Afinal, magoa-la me faria morrer um pouco mais.
Senti o vento forte dos carros que passavam rápido nas
avenidas, enquanto eu esperava que o sinal fechasse para panfletar mais uma vez. Lembrei-me do
susto que levei ao ver um homem nú dentro do carro ao qual entregava um
panfleto e lembrei também dos olhos
cheios de más intenções que diversas vezes eram dados a mim, por
homossexuais, e como isso me irritava e
outras vezes me divertia ao contar para os amigos. Mal pude contar
quantas vezes quase fui atropelado em meio aos carros. Voltando a mim por
alguns segundos por sentir a dor nos
joelhos tortos eu suspirei, joelhos tortos pelo fato de ter andado muito e ter
passado muitas horas em pé, mesmo em fase de crescimento.
Tentei contar quantos empregos eu já havia arrumado antes
dos 18 anos. Panfleteiro, ajudante de mecânico, Office boy, lavador de carros,
ajudante em um ferro velho, amarrador de arame em vigas de construção, ajudante
de pedreiro e repositor de estoque em um mercado. Fiquei em dúvida se havia me
lembrado de todos. Mas de uma coisa eu não esquecia, de como era explorado,
maltratado e outras vezes humilhado pelos patrões, sendo que algumas vezes o
que eu recebia por um mês de trabalho mal chegava a um salário mínimo.
Segurei lágrimas que tentavam escapar de meus olhos, para não me
envergonhar diante de tantas pessoas desconhecidas. Recolhi todas as lembranças
e as coloquei de volta no pote, e dessa vez forcei a tampa para que aquilo não voltasse
a acontecer, e guardei lá no fundo, mesmo eu sabendo que isso sempre se
repetirá.
Desci em meu destino, e caminhei até em casa me orgulhando
de tudo que vivi, sabendo que se talvez as
coisas tivessem sido diferentes eu não traria os bons valores que acho que
trago hoje.
Só que lá no fundo, minha criança interior vestida com
moletons mal cheirosos ainda desejava que nada daquilo tivesse acontecido.
Eu, Willian Borges Euzébio, gostaria muito que isso fosse
somente mais um de meus contos, no fundo eu queria que fosse mentira. Sem me
fazer de vitima, mas socialmente sendo. Isso é só um pouco da minha história.
WB